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Historia da Capoeira
Texto extraído da Monografia apresentada à Universidade São Judas Tadeu, em 2003, como requisito parcial para obtenção do grau de Bacharel em Educação Física, sob orientação da Prof. Dra.Vilma Leni Nista-Piccolo con o título ?A CAPOEIRA COMO CONTEÚDO DISCIPLINAR NA FORMAÇÃO DOS PROFESSORES EM EDUCAÇÃO FÍSICA? com autoria de Juan Ramon Tejero Sirio.


A Capoeira

?Capoeira é luta de bailarinos. É dança de gladiadores. É duelo de camaradas. É jogo, é bailado, é disputa - simbiose perfeita de força e ritmo, poesia e agilidade. Única em que os movimentos são comandados pela música e pelo canto. A submissão da força ao ritmo. Da violência à melodia. A sublimação dos antagonismos. Na capoeira, os contendores não são adversários, são camaradas. Não lutam, fingem lutar. Procuram genialmentedar a visão artística de um combate. Acima do espírito de competição, há neles um sentido de beleza. O capoeira é um artista e um atleta, um jogador e um poeta.? GOMES ( s.d, p.2)

A capoeira é uma manifestação cultural brasileira que reúne características muito distintas: trata-se de uma mistura de arte-luta praticada ao som de instrumentos musicais como o berimbau, o pandeiro e o atabaque. Além de ser um excelente sistema de defesa pessoal e de treinamento físico, destaca-se dentre as modalidades desportivas por ser a única originariamente brasileira e que se fundamenta nas nossas tradições culturais, por isso representa um patrimônio da cultura brasileira. É a síntese de movimentos e gestos corporais das culturas africanas que, durante os últimos três séculos tem feito parte do cotidiano urbano nacional. Segundo Areias (1983, p. 23-24), "... a dança, por sua vez, representada pela ginga, servia para disfarçar a luta dando-lhe um caráter lúdico e inofensivo. A capoeira serviu por muitos anos como instrumento de luta dos escravos...?.

Adorno (1999) afirma que a origem do nome, nenhum pesquisador, até hoje, determinou com exatidão. Uma das teorias em relação à origem da palavra capoeira estabelecida pela língua tupy-guarany é que, caápuêra (caá = mato; puêra = que já foi) resulta na seqüência das palavras capuíra, capoêra e capoeira. Os índios chamavam de caápuêra o local, que era sempre no meio das matas, onde o mato era ralo, rente ao chão ou às vezes até mesmo cortado (roçado). Alguns estudiosos, como Rego e Vieira,relatam que a palavra capoeira designa um tipo especial de cesto, usado no transporte de aves, que eram conduzidas por escravos aos mercados, sendo que a esses escravos teriam se estendido a denominação capoeira. Segundo os defensores dessa hipótese, enquanto aguardavam a chegada dos comerciantes, os escravos se divertiam na prática de sua arte-luta, também chamada pelo nome ?capoeira?.

Para Adorno (1999) a existência da capoeira surgiu com as senzalas, com as fugas dos negros e com os quilombos brasileiros da época colonial, onde os escravos para se defenderem, faziam do próprio corpo uma arma. Logo, as origens da capoeira encontram-se nesse ambiente, onde os negros relembravam suas culturas originadas da África. Para lutar contra os invasores chamados de "capitães do mato?, os "fujões" utilizavam todo o seu corpo, batendo com a cabeça, os pés, joelhos. O contato com a natureza e com os animais do mato, assemelhando-se às características de sobrevivência destes, inspirou-lhes a criar um conjunto de movimentos de defesa e ataque. A maioria dos golpes parece com as defesas e ataques de animais, como a marrada do touro, o coice do cavalo, a fisgada do rabo de arraia, ou guardam relação com instrumentos de trabalho cuja ação é semelhante aos movimentos do corpo dos capoeiras: o martelo batendo, a foice roçando o mato etc. Segundo Areias (1983, p.15):

?Tendo como mestra a mãe natureza, notando brigas dos animais as marradas, coices, saltos e botes, utilizando-se das manifestações culturais trazidas da África (como, por exemplo, brincadeiras, competições etc, que lá praticavam em momentos cerimoniais e ritualísticos), aproveitando-se dos vãos livres que aqui se abriam no interior das matas e capoeiras, os negros criam e praticam uma luta de autodefesa para enfrentar o inimigo?.

           O debate sobre o surgimento da capoeira é uma questão complicada, pois existem aqueles que defendem a idéia de que ela surgiu na África, e outros que afirmam que a capoeira surgiu no Brasil. Esses, argumentam que não existe uma luta semelhante à capoeira, criada e desenvolvida pelos escravos em outras ex-colônias do continente americano, as quais também receberam grandes quantidades de negros africanos vindos das mesmas regiões que aqueles trazidos para o Brasil. Já a idéia de que a capoeira seria uma luta africana trazida pelos cativos, apóia-se no fato de que ainda hoje, no continente africano, existem danças e rituais com características de luta, como por exemplo, a luta do bode com movimentos estranhos que parecem com uma briga de bodes. Nesse tipo de luta, os dois contendores usavam somente a cabeça para atacar e derrubar os seus adversários. O bate-coxa, praticada principalmente pelos negros de maior estatura, pois consistia em derrubar o adversário com pancadas nas coxas e nas canelas. Nessa, o objetivo principal era mostrar quem era o mais forte, e aquele que desistisse ou caísse seria o perdedor, e isso propiciava uma espécie de aposta, da qual faziam parte bebidas, objetos de valor, dinheiro e algumas vezes até mulheres. O batuque era praticado de duas formas, a primeira consistia em um negro mais forte ficar plantado dentro de uma roda enquanto o outro tentava projetá-lo ao solo, com golpes desequilibrantes; e a segunda forma era tentar colocar o adversário a nocaute com golpes de perna ou projeções, também usando alguns golpes de braço. A bassula consistia em derrubar e imobilizar o adversário no solo, sem golpes traumáticos, em que o lutador só se vale de quedas e imobilizações do adversário no solo, sendo que o objetivo maior é derrubar e não imobilizar. A kamangula era uma luta em que se aplicava somente golpes de braço e, com as mãos abertas, uma espécie de boxe com mãos abertas; já o nigolo, ou dança das zebras, era uma luta ritualística dos povos Bantus e Mucupis, que acontecia quando uma jovem chegava na idade de se casar. Geralmente isso se dava entre os 12 e os 15 anos de idade da adolescente, quando o pai da jovem escolhia os homens de mais posses da tribo (gado, terra etc), para que provassem a sua valentia, pois dessa forma demonstravam a capacidade de poder cuidar bem da futura esposa. Essa luta era feita da seguinte forma: os dois, ou mais pretendentes, se combatiam (homem a homem), com cabeçadas e chutes com as mãos e pés no chão, sendo que o indivíduo que caísse primeiro, ou simplesmente desistisse de lutar, perdia a luta, sendo concedida a mão da jovem ao campeão. Para alguns autores, a capoeira praticada em terras brasileiras seria simplesmente uma variação dessas lutas.

Vieira (1995) afirma que existe uma grande controvérsia entre os estudiosos em relação à história da capoeira, sobretudo no que se refere ao período compreendido entre o seu surgimento, supostamente no século XVII, quando ocorreram os primeiros movimentos escravos de fuga e rebeldia, e o século XIX, quando apareceram os primeiros registros confiáveis, com descrições detalhadas sobre sua prática. Portanto, fica a questão: a capoeira surgiu na África ou no Brasil? Atualmente é possível considerar esta questão já resolvida, pois a maioria dos autores que escrevem sobre a história da capoeira concorda que ela foi criada no Brasil pelos negros africanos, a partir do início da colonização para o trabalho escravo na lavoura, na pecuária, mineração e em atividades urbanas. É brasileira, mas de raiz cultural africana. Tem ela uma história acidentada, cheia de episódios truculentos. Logo, entendemos que a capoeira surgiu no Brasil como luta de resistência do povo de origem africana que trazia uma grande bagagem cultural de suas origens, e que precisou desenvolver um conjunto de técnicas de ataque e defesa em virtude da situação de opressão em que vivia durante a escravidão. Por isso podemos considerar que a capoeira faz parte de todo um processo de resistência dos negros no Brasil, que também se expressou na religião, na arte, na culinária etc. Para Cruz, (1997), na verdade, essa controvérsia se justifica pela complexidade da questão e pela dificuldade na obtenção de documentos que relatem a vida dos escravos durante os primeiros séculos de escravidão no Brasil, pois grande parte do que se sabe hoje sobre a capoeira praticada pelos escravos, foi transmitido pelas gerações de forma oral, já que, em 15 de dezembro de 1890, Ruy Barbosa, o então Ministro da Fazenda no governo de Deodoro da Fonseca mandou queimar todos os documentos que se referiam à escravidão, alegando que se deveria apagar da memória brasileira esse lamentável acontecimento. Os historiadores atribuem esse fato a uma estratégia política que procurava evitar que os ex-proprietários de escravos procurassem junto ao governo uma compensação dos prejuízos que tiveram com a abolição da escravatura em 1888. É provável que esses documentos pudessem nos trazer muitas informações sobre a vida dos escravos, sobre suas fugas, suas formas de resistência à escravidão.

Com a abolição da escravatura em 1888 muitos escravos foram para as cidades sem emprego e a capoeira foi um dos meios utilizados para a sobrevivência. Alguns ex-escravos passaram a ganhar a vida fazendo pequenas apresentações em praça pública, porém muitos deles utilizaram a capoeira para roubar e saquear. Os marginais brancos também aprenderam a nova luta com o convívio mais direto com os negros e introduziram na sua prática as armas brancas. Formaram-se verdadeiros bandos de marginais aterrorizando a população. Aos poucos a capoeira foi se envolvendo com a vida política e chegou a ser amplamente utilizada como arma na luta entre as facções que se enfrentavam nos tempos do império e nos primórdios da República, sobretudo nas cidades do Rio de Janeiro, Salvador, Recife e São Paulo. Os capoeiras eram contratados para interferir em comícios, tumultuar eleições e fazer a segurança de figurões da política. Segundo Barbieri, 1993, em 11 de outubro de 1890 foi promulgada a Lei nº 847, de autoria de Sampaio Ferraz, com o título "Dos Vadios e Capoeiras", Art. 402, lia-se:

Fazer nas ruas e praças públicas exercícios de agilidade e destreza corporal, conhecidos pela denominação capoeiragem; andar em carreiras, com armas ou instrumentos capazes de produzir uma lesão corporal, provocando tumulto ou desordens, ameaçando pessoa certa ou incerta, ou incutindo temor de alguma.: Pena: De prisão celular de dois meses a seis meses. Parágrafo único: é considerada circunstância agravante pertencer o capoeira a algum bando ou malta. Aos chefes e cabeças impor-se-á a pena em dobro.?

Segundo Sodré (1983, p.14-17),

?As punições aplicadas eram reclusão na ilha Fernando de Noronha e castigos corporais, tais como chibatadas. Pessoas como o regente Feijó, Sampaio Ferraz e o major Vidigal foram os responsáveis para manter a ordem; tiveram pouco sucesso. Segundo Areias (1983 p.50.)?,...os seus chefes foram encarcerados ou exterminados. Mas a capoeiragem continuou fazendo o seu trajeto. A capoeira se espalhou pelo Brasil, porém foram nos estados da Bahia, Rio de Janeiro e Pernambuco onde se encontravam os maiores comentários entre o povo e a imprensa local. Apesar de reprimida a capoeira continuou a ser praticada e ensinada para as gerações seguintes?.

Após um recesso compulsório de quase 50 anos, na década de 1930, inicia-se um novo ciclo na história da capoeira. Nesta época, a situação do país não era nada boa, estávamos em pleno regime de forças, e dentre as leis penais, existia uma que considerava os capoeiristas como delinqüentes perigosos. Com a quebra da Bolsa de Nova Iorque em 1929 e a conseqüente crise do capitalismo, gerando uma verdadeira ebulição das forças sociais no Brasil, várias medidas foram tomadas para angariar a simpatia popular no período em que Getúlio Vargas governava o país, entre elas a liberação de uma série de manifestações populares. Nesta época, Manuel dos Reis Machado, Mestre Bimba foi convidado pelo interventor federal na Bahia, Juracy Montenegro Magalhães, a se apresentar com seus alunos para mostrar "a nossa Herança Cultural" para amigos e autoridades no Palácio do Governo. Ganhou respeito e admiração da autoridade máxima do Estado e abriu caminho para uma demonstração para o Presidente da República, Getúlio Vargas. Esta apresentação ao Presidente foi fundamental para a evolução da cultura africana em nosso país. Getúlio Vargas legalizou a capoeira, a reconheceu como luta nacional brasileira e, posteriormente, oficializou sua prática através do Ministério da Educação. Em 09 de julho de 1937, Manoel dos Reis Machado, Mestre Bimba (1900-1974), consegue o registro de sua academia pela Secretaria de Educação, Saúde e Assistência Pública, sendo a primeira a ser reconhecida no país. Após essa passagem, a capoeira perdeu suas características de luta de delinqüentes perigosos, pois para freqüentar a academia de Mestre Bimba as pessoas eram obrigadas a ter carteira de trabalho assinada ou serem estudantes. Através disso, a capoeira volta ao cenário cultural, se faz presente na música, nas artes plásticas, na literatura, nos palcos. Juntamente com esse processo de organização e de conquista de novos espaços na sociedade, a capoeira desenvolveu-se muito no aspecto técnico.

Com a ascensão sócio-cultural da capoeira mostrou-se que de nada adiantaram as perseguições que ela sofreu. Segundo Luiz Renato Vieira (1999), outro passo importante na institucionalização da capoeira como esporte e arte marcial foi seu ingresso nas escolas e universidades sendo reconhecida como instrumento educativo importantíssimo para a consciência de nossa cultura, como expressão do folclore nacional e como técnica eficiente de luta. Atualmente, há alguns cursos de Educação Física no Brasil que têm capoeira como uma disciplina curricular, permitindo que os formandos dessa área tenham noção das possibilidades desta luta ao que se refere ao desenvolvimento motor, pscicológico e à preparação física. Em decorrência desse desenvolvimento ao longo deste século, a capoeira tem conquistado seu lugar entre as artes marciais, no Brasil e no mundo, enriquecida ainda pela sua musicalidade, o que lhe dá uma grande especificidade entre as demais lutas.

O jogo da capoeira acontece sempre numa roda em que no centro dois capoeiristas executam os movimentos desta modalidade acompanhados por instrumentos que marcam os diferentes ritmos para o seu desenvolvimento. As rodas de capoeira são ritmadas pelo toque de instrumentos e pelas palmas dos capoeiristas. "O jogo da capoeira é acompanhado por instrumentos musicais, comandados pela figura máxima do berimbau, o qual dá o tom e comanda o ritmo para a execução das cantigas: Cantos Corridos ou Ladainhas" (Areias, 1983, p.95). Podemos encontrar em uma roda de capoeira, além do berimbau, pandeiro e atabaque e, menos comumente, o agogô e o reco-reco. Menezes (1976) afirma que atualmente não se concebe uma roda de capoeira sem o toque característico do berimbau, podendo, no entanto, os demais instrumentos serem dispensados. O berimbau dita o ritmo do jogo, é ele que comanda o toque a ser executado.

A capoeira apresenta diversos toques que são executados de acordo com a ocasião. Durante a roda são entoadas cantigas que, na opinião de Areias (1983), se dividem em dois tipos: cantos corridos e ladainhas. A diferença entre o canto corrido e a ladainha está no fato de, na ladainha, sempre contar uma história, geralmente sem a resposta ou interferência do coro. Já no canto corrido, o cantador não tem a preocupação de contar nenhuma história, as frases são ditas aleatoriamente, falando de assuntos diversos, e a participação do coro é imediata e necessária desde o seu início.

Para Ribeiro (1992) no jogo de capoeira são evidenciadas a agilidade, destreza, coordenação motora, flexibilidade dos praticantes, podendo ainda desenvolver sua criatividade, jogando para recrear e não para testar capacidades. O professor deve trabalhar, de forma integrada, com os três domínios de aprendizagem do ser humano: motor, afetivo- social e cognitivo.

Campos (1995, p.22) afirma que a capoeira é um método de ginástica genuinamente brasileiro que desenvolve de forma natural e espontânea as qualidades físicas: força, velocidade, resistência, equilíbrio, destreza, flexibilidade e coordenação, atuando com eficácia na melhoria da condição física geral, produzindo efeitos benéficos nos sistemas orgânico, muscular e articular, além de influenciar de forma positiva os aspectos cognitivo, afetivo e motor dos seus praticantes.